1.3. Cristo, fonte da bênção e da comunhão
A Graça é o favor imerecido de Deus aos homens; sua expressão mais sublime é a salvação, porém ela continua a agir, em diferentes medidas, na experiência cotidiana dos crentes. Essa variação não decorre de preferência divina, mas da disposição de cada um em buscar e cooperar com a ação do Espírito. Por isso, Paulo afirma: “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4.7).
1.3.1. À descida de Jesus ao hades
Paulo recorda que Cristo desceu “às partes mais baixas da terra” (Ef 4,9) — expressão associada, por parte da tradição, ao hades, o lugar dos mortos. A referência, inspirada no Salmo 68.18, anuncia a vitória do Senhor sobre as forças do mal.
Aquele que desceu também subiu aos Céus, triunfando sobre o pecado, a morte e o diabo, e, como conquistador, concedeu dons ao Seu povo (Ef 4.10). Sua descida aponta para o sacrifício; sua ascensão, para o triunfo — e a partir dessa vitória Ele reparte dons à Igreja.
1.3.2. Os dons ministeriais
O apóstolo dos gentios revela que Jesus, ao ascender aos Céus, concedeu à Igreja diferentes dons e ministérios (Ef 4.8). Entre eles estão os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (Ef 4.11 - ARA), cuja função é aperfeiçoar os santos para o desempenho do serviço no Reino (Ef 4.12).
Cada manifestação dessa graça, embora distinta, tem um propósito comum: promover a unidade da fé e o conhecimento do Filho de Deus, conduzindo os fiéis à maturidade (Ef 4.13). Assim, esses dons espirituais não devem suscitar competição, mas cooperação, edificando o corpo até que todos alcancem a plena estatura de Cristo (Ef 4.15).
1.3.3. A Igreja como corpo bem ajustado
Paulo compara a comunidade dos salvos a um corpo vivo, em que cada membro cumpre sua função de modo harmonioso. Quando todos atuam “segundo a justa operação” (Ef 4.16 - ARA), esse organismo cresce e se edifica em amor. Fora desse vínculo, não há desenvolvimento pleno, pois a vitalidade da fé se articula na unidade do povo de Deus (cf. 1 Co 12.12, 27).
2. A RENOVAÇÃO DO HOMEM INTERIOR
A vida cristã é um processo contínuo de transformação. Em Jesus, o “velho homem” é despojado, e um novo modo de habitar o mundo se inaugura, caracterizado pela restauração da mente e pela prática da santidade. Paulo apresenta esse movimento em três etapas: abandonar o passado corrompido; permitir que o Espírito regenere o íntimo; e revestir-se do Caráter de Cristo.
2.1. O despojamento do velho homem
Antes da salvação, O ser humano estava espiritualmente morto, dominado pelo pecado e alheio à vontade do Senhor (cf. Ef 2.1-3). Paulo retoma esse entendimento para exortar os crentes a abandonarem a antiga maneira de viver — marcada pela vaidade dos pensamentos, pela ignorância e pela insensibilidade moral (Ef 4.17-19). O “velho homem” representa essa conduta corrompida, que precisa ser renegada a fim de que o entendimento seja redesenhado e guiado pela luz de Cristo.
2.2. À mente renovada pelo Espírito
Paulo lembra aos efésios que o encontro com o Salvador muda radicalmente o modo de viver. A fé cristã não se limita ao conhecimento, mas implica uma aprendizagem existencial: ser moldado pelo próprio Cristo. Por isso, o apóstolo os exorta a abandonarem o “velho homem” e permitirem que o divino Consolador revigore seu modo de pensar (Ef 4.20-23). Essa obra interior alcança o centro da consciência e da vontade, produzindo discernimento e nova sensibilidade espiritual. Uma mente transformada é o alicerce para o revestimento do “novo homem”, criado em verdadeira justiça e santidade (Ef 4.24).
2.3. O revestimento do novo homem
O refazimento da consciência produz, naturalmente, um outro comportamento. O “novo homem, criado segundo Deus” (Ef 4.24 - ARA), manifesta ao mundo uma existência completamente reconstituída. Revestir-se do Filho significa abandonar atitudes que entristecem o Espírito — como a ira, a malícia e a amargura — e cultivar um coração benigno, misericordioso e perdoador (Ef 4.25-32).
A nova vida não é apenas ausência do pecado, mas presença ativa da Graça, que reflete a imagem de Cristo no convívio com o próximo.
3. A JORNADA DOS FILHOS DA LUZ
Paulo conclui suas exortações destacando que a fé se anuncia no modo de viver. Como filhos, os crentes são chamados a imitar o Pai, refletindo o amor do Unigênito, rejeitando as obras das trevas e agindo com discernimento e sabedoria sob a direção do Espírito Santo (Ef 5.1-17).
3.1. O exemplo do Pai e do Filho
Ser “imitador de Deus” (Ef 5.1) significa refletir a natureza de Jesus em compaixão, pureza e gratidão. Por isso, Paulo adverte que práticas como imoralidade, impureza e cobiça não condizem com a nova vida em Cristo e não devem sequer ser nomeadas entre os santos (Ef 5.3-4).
Em contrapartida, o salvo é chamado a proferir ações de graças, vivendo de modo digno do Reino, pois quem persiste nas obras da impiedade revela que ainda não compreendeu o evangelho (Ef 5.5).
3.2. O contraste entre luz e trevas
Paulo contrasta a escuridão moral do Homem sem Deus com a iluminação promovida pelo Espírito. Primeiro, alerta os efésios contra o engano das falsas palavras; em seguida, conclama-os a serem “filhos da luz”, discernindo e refletindo o que agrada ao Senhor.
3.2.1. A advertência contra o engano
O apóstolo orienta os irmãos na fé a não se deixarem seduzir por discursos vazios que minimizam o pecado (Ef 5.6). Alguns, sob aparência de sabedoria, relativizavam o comportamento imoral, mas o apóstolo lembra que tais práticas atraem o juízo divino. Por isso, o cristão não deve associar-se a quem compactua com as trevas — ao contrário, deve manter-se fiel à verdade do evangelho (Ef 5.7).
3.2.2. O chamado para andar na luz
Outrora envolvidos nas trevas, agora os salvos são chamados de “filhos da luz” (Ef 5.8) — expressão que define aqueles cujo caráter reflete o de Cristo; estes discernem o que agrada ao Senhor e rejeitam o que o ofende. O crente não pode ser cúmplice das obras do mal, mas deve expô-las por meio de uma conduta íntegra, pois a verdade eterna ilumina tudo o que é puro e reto (Ef 5.10-13).
3.3. O fruto da luz e a sabedoria espiritual
Assim como em Gálatas 5.22 Paulo descreve o “fruto do Espírito”, em Efésios 5.9 (ARA) ele apresenta o “fruto da luz”, manifesto em três virtudes — “bondade, justiça e verdade” —, que revelam a presença de Jesus no coração do salvo. Andar nessa dimensão implica deixar-se conduzir por esses valores e rejeitar toda forma de escuridade ética e moral (Ef 5.10-13).
O apóstolo também conclama os crentes a despertarem da apatia: “Desperta, ó tu que dor es, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá" (Ef 5.14). Essa exortação, provavelmente inspirada em um cântico da Igreja Primitiva, simboliza o chamado à vigilância e à santidade.
Por fim, Paulo orienta os fiéis a viverem com sabedoria, aproveitando bem o tempo e buscando compreender a vontade do Senhor (Ef 5.15-17; cf. Rm 12.2; CI 1.9). A vida iluminada é, portanto, um caminho de lucidez e equilíbrio sob a direção do Espírito.